A atração para baixo


“A compaixão de Jesus é caraterizada por atração para baixo. É justamente isto que nos deixa perturbados.  Nós nem sequer podemos pensar em nós mesmos em outros termos que não os de atração para o alto, mobilização para cima na qual lutamos por vida melhor, por um salário mais elevado, por posições de maior prestígio. Assim, perturbamo-nos profundamente com um Deus que encarna em si um movimento para baixo. Em lugar de lutar por posição superior, por um poder maior e por influência maior, como diz Karl Barth, Jesus se movimenta das ‘alturas para as profundezas, da vitória para a derrota, da riqueza para a pobreza, do triunfo para o sofrimento, da vida para a morte.’

Toda a vida e toda a missão de Jesus envolvem a aceitação da pobreza e a revelação nesta pobreza de amor ilimitado de Deus. Nisto vemos o que significa compaixão. Não é inclinação pra os desprivilegiados a partir de posição privilegiada; não é contato a partir de cima com aqueles que são menos afortunados aqui embaixo; não é gesto de simpatia ou de piedade para com aqueles que não conseguem dar um salto para cima. Pelo contrário, a compaixão significa dirigir-me diretamente até aquelas pessoas e até aqueles lugares em que o sofrimento é mais agudo e lá construir um lar. A compaixão de Deus é total, absoluta, incondicional, sem reservas. É a compaixão daquele que continua se dirigindo para os lugares mais esquecidos do mundo, e que não consegue descansar enquanto sabe que ainda existem seres humanos com lágrimas nos olhos. É a compaixão de Deus que não age meramente como servo, mas cuja condição de servo é expressão direta da sua divindade. O seu ato de tornar-se servo não é exceção à sua condição de Deus. O seu auto-esvaziamento e a sua humilhação não são desvio da sua verdadeira natureza. O seu ato de tornar-se como nós e de morrer numa cruz não é interrupção temporária de sua própria existência divina. Pelo contrário, no Cristo que se esvaziou e se humilhou, nós encontramos Deus, vemos quem realmente é Deus, chegamos a conhecer a sua verdadeira divindade.  Por conseguinte, podemos dizer que a atração para baixo como a vimos em Jesus Cristo não é movimento de afastamento de Deus, e sim movimento para Deus como realmente é: Deus para nós, que veio, não para dominar, senão para servir.”

{Henri Nouwen}

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